Testemunho
Fazem duas luas que aquela água gelada lavou meu orí, mãos e pés. Minha vergonha, meus sentidos e escorreu...
Fazem duas luas que beijei o chão quente do rei de Oyó e jurei em nome do tempo, de tempo e para o tempo, ser digna
Fazem duas luas que perdi os cabelos do medo, os fios frágeis de um caminho vacilante.
Fazem duas luas que me vestiram de branco para aprender a ser omon, filha dos astros, das folhas e dos lagos
E mergulhar fundo nas minhas próprias águas
Fazem duas luas do dia do arrebatamento, da conversão e de encontro com o céu
Dourado, reluzente, faceiro
Por mãos trabalhadoras, operárias incansáveis no cumprimento do dever. Dignas de pilãos, espadas, opaxorôs, cabaças encantadas, erukeres e palhas de proteção.
Colos espaçosos.
Fazem duas luas que ouvi a voz do trovão
Fazem duas luas que a ponta da flecha me apontou à Saketê
E mudei o nome, a vida
Encontrei a salvação, em nome não de um, mas daqueles que atravessaram mar e céu e no último suspiro de vida no ayê conduziram o axé até os meus dias
Fazem duas luas que por direito, aconchego e amor, me olho no espelho da manhã como filha do fogo, da vida, das estradas e matas fechadas
Fazem duas luas que, em terra de Oxogbô, Ijexá, Ilê Ifé, Abeokutá não sou intrusa
No meu centro, tenho a marca
Na pele, a cor das filhas de Yêyê.
***Aline, é jornalista, editora e hoje 15/10/2009 faz dois anos que renasceu pelas graças da dona das águas doces.
